É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

                                  Manuel Alegre

Bem no clima da somaiê que ela abraça agora…

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Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

                 Florbela Espanca

Comemora dez dias sem surpreender-se aos prantos sozinha. Entende que o revoar das borboletas eternamente pousadas no estômago foram substituídas por uma incômoda dor de barriga ao dar contatos para a amiga preocupada e ao ter que responder sinceramente para a colega em comum que viu a paixão nascer e morrer se “estava bem”. Desconfia que este estado de espírito neutro seja duradouro. Mas o fantasma ressuscita e liga. Um incômodo indefinível assalta o corpo. Resolve não fugir e encarar o recado, seja ele qual for. Será preciso sessão de mesa branca para se livrar da longínqua assombração? Novas paixões a visitam – e decepcionam – “de quando em vez”. Mas como diria a principal atingida desde que uma tragédia tangenciou sua vida, ela tem que continuar. Ainda que aos trancos e barrancos. Que este vazio não há de tragar sua essência, ainda que pareça um buraco negro, uma areia movediça. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão Será Drummond?

Gozado que ela começou este post há tanto tempo que ainda estava no clima “amor e business não combinam”, porém pouquíssimo tempo depois teimou na mesma mistura explosiva e desastrada de novo… Tradicionalmente a terça seria dia de meditação do Osho. As idas e vindas da vida – que comprova o quanto Deus tem mesmo senso de humor negro – a distanciaram das técnicas meditativas para o homem contemporâneo, mas OK, ainda estava no caminho do auto conhecimento e aprimoramento pessoal, desta vez pela yoga. Saudades da piscina! Mas sem carro não tem como ser hiperativa… Resolve fazer um pout porri do que poria na traseira do seu caminhão, se tivesse um, que jamais enfartaria pedestres nas calçadas urbanas com aquela buzina de acordar companheiro dormindo na estrada:

“Não há mestres tagarelas.” Marco Schultz

“Tempo de olhar para dentro e desconfiar que há um abismo entre a mente e a essência de luz.” Quem disse isso mesmo?

“O fundamental do Zen é que tudo é como deve ser, não há nada faltando. Nesse exato momento tudo é perfeito. O acerto não está em nenhum outro lugar. É aqui e agora” Osho

“A existência simplesmente é: não há propósito, não há nela um fim. Sinta-a aqui e agoa. Isso é ser religioso” Osho

“Todo propósito, se houver, é fazê-lo acordar. É lembrá-lo de que você é o que você já está procurando. Pare. E veja” Osho

“Deus não é uma hipótese, mas uma experiência” Osho

“Torne-se alerta. A partir desta atenção, seja qual for a forma que sua vida tome, deixe acontecer” Osho

“A vida, como é normalmente vivida, não é nada a não ser imitação. Tanto a educação, como a linguagem, a moralidade, a sociedade, a cultura – tudo é aprendido pela imitação” Osho

“Isso também passará TUDO É IMPERMANENTE” Osho

“Não existe nada mais sagrado que o amor e o riso e nada mais religioso que a brincadeira” Osho

“Se amar, poderá esquecer-se de Deus completamente. Porque através do amor tudo acontecerá: a meditação, a oração, Deus” Osho

“Se você tem um coração que confia, nada é impossível. Mesmo Deus não é impossível” Osho

“Lembre-se: meditação significa consciência. O que quer que você faça com consciência é meditação. Ação não é a questão, mas sim a qualidade que traz a sua ação” Osho

Ela quis apertar rewind e dar delete nas memórias auditivas, afetivas, emotivas, olfativas, visuais e gustativas que remetessem a tudo que ao mesmo tempo foi tão bom e tão avassalador.

Também adoraria reprogramar o modo confiar em Deus e o mundo como se tivesse cinco anos que a tem feito cair das nuvens ao invés do primeiro andar de vez em sempre. Não tem bem certeza se a queda mais alta é melhor e desconfia que Machado de Assis não devia ter passado por isso quando escreveu esta célebre frase.

Gostaria de virar o coração do avesso, como se faz com bolsa em que se carrega tudo, mas não se encontra nada e chacoalhar o dito cujo até por pra fora quem se instalou sem pedir licença, sob o disfarce de trazer bons ventos e provocou um furacão que não deixou nem rastro da esperança retinta de nova daqueles dias em que ainda estava com os óculos embaçados.

Vontade louca de mergulhar lá dentro com liquid paper e uma borracha nova e cheirosa, roubada diretamente da infância, passando com ambos como trator em velhos hábitos, defeitos quase que calcificados, manias calejadas, histórias que se repetem, medos que provocam pesadelos, laços que fazem com que o sono se perca, receios que detonam as unhas e ansiedade que desperta a criança feliz que só se satisfaz com um Bobajitos goela abaixo.

Ânsia de encontrar o modo auto cura perdido em algum recanto escondido de si e detonar com um chororô insistente, uma falta de vontade de dar chance ao imprevisível, uma necessidade de ser guinchada da cama logo cedo, uma preguiça da tentativa sem sentido de se deixar envolver e um tédio existencial que adoraria pedir:

– Passa mais tarde?

Deve ser a famosa síndrome páre o mundo que eu quero descer. Sonho de começar TUDO DE NOVO. Do zero. Renovação completa, com todas as letras maiúsculas e separação de silabas. Estranhou o quanto ñ se encaixava mais em si mesma. Provavelmente é que um cristão resumiria a “Deus tira com a mão s pq sozinha não consigo”. Parece que Pessoa dizia que chega uma hora em que é preciso se livrar das velhas roupas que já não servem. Dos velhos hábitos que já não cabem. Das velhas paisagens que já não dizem nada. Dos velhos amigos que já não te acompanham. Da velha família que já não te entende. Do velho método que já não funciona. Do velho amor que já apodreceu e não pode mais dar frutos. Dos velhos defeitos que já a deixam mais do que sem graça e sem jeito. Play a complete new role. De onde se começa a virar tudo de ponta cabeça mesmo?

Pela primeira vez não acreditou em nenhuma daquelas palavras e achou que era uma completa perda de tempo dar corda para se enforcar numa roubada com todas as letras maiúsculas e separação de sílabas. Que aquela amizade já nasceria condenada. Traz à tona o lado pé no peito de quem não aceita barbaridades e contesta absurdos inconcebíveis. Volta a acordar com vontade de fazer o que andava sem ânimo nenhum, mas antes do baque sempre havia curtido. A dó dá lugar ao medo e à preocupação se ele não veio tarde demais. Começa a achar o vai e vém de palavras vomitadas e milimetricamente calculadas conversa com a velha surda da Praça É Nossa, pois manda uma intenção e recebe outra compreeensão. Consegue se livrar sem dor no coração dos resquícios de uma tentativa mão única de relacionamento. Comemora se aproximar mais da civilização e fugir do trânsito, mas tem receio de que devia começar do zero também na profissão, no amor, quiçá nas amizades. Se espanta com as previsões de quem não sabe da missa a metade. Zilhares de conselhos, previsões e alertas começam a fazer sentido,  ainda que tardiamente. Reza diária e matutinamente e recupera milímetro a milímetro, em suaves prestações, a força que os conhecidos sempre admiraram. Não tem idéia como levanta de manhã com o corpo cobrando a última década de sono leve e o emocional prestes a colapsar, implorando por umas férias urgentes. E canta mantra no caminho do trabalho e nos passeios com o cachorro. Sente que volta à aborrescência a cada nova roubada amorosa que cruza seu caminho – uma delas numa confissão weird como num recente filme. A vida imita a arte? Não tem idéia de como a preguiça e letargia existencial ainda não a paralisaram de vez e pq anda tão sem vontade de nada com nada. E sonha com tudo, tudo novo, bem longe dali. Agradece pela viagem repentina a trabalho e sonha com tempinho livre para praia, yoga e meditação. Vontade emergencial de passar uma semana de papo pro ar, no campo ou na praia. Lembra das colegas meio distantes: respira! Relaxa… E tenta, tenta, tenta… Sabe Deus até quando.

Chega mais cedo à oficina de teatro. Ri da lembrança da chefe perguntando pq fazia teatro, pois lembra a dúvida da avó “pq sair?” e a mãe questionando quase que a mesma coisa com outras palavras: pq se divertir? Lembra-se do que leu no muro do cemitério próximo dali: buscamos a salvação da alma pela cultura, Maneco Gusmão. Pergunta-se quem seria ele e assinaria embaixo se pudesse. Tem uma lombriga súbita de comer açaí na padaria da região, mesmo tendo feito pit stop antes, tentando garantir a tranquilidade do estômago. Demora alguns minutos na fila do pagamento e acha que o estranho à frente lembra o primeiro que a fez sentir viva depois da separação no ano passado, mas numa versão morena. Se diverte com a familiaridade com quem nunca havia cruzado. Trocam olhares, risadas e como ele paga antes dela, dão tchau um ao outro. Um conto do Mário Prata fala do quanto a imaginação dele voa longe ao cruzar com pacientes do mesmo psicólogo na sala de espera, sem trocar palavras com nenhum deles. Quem seria o estranho com quem sintonizou minutos antes da aula em pouco tempo de uma fila de padaria? Gozada esta sensação de eterno desencontro das relações fugazes e cada vez mais superficiais…